Uma casa assombrada em Lisboa. Parte 1- Baseado em factos reais.
- Vera Lucia
- 14 de dez. de 2016
- 7 min de leitura

Está história não é autobiográfica nem o pretende ser mas será contada por vezes na primeira pessoa.
É verdadeira mas os protagonistas querem manter o anonimato devido ao horror e tristeza e principalmente a vergonha. Respeito, por isso os nomes serão fictícios.
Capítulo I
O começo resumido da verdadeira historia.
No ano de 1938 nasce o homem que vem dar origem a esta família, o Vasco. Numa aldeia no centro de Portugal, onde criar galinhas e porcos para alimentar a família era por vezes os únicos meios de subsistência dos aldeões, a matança do porco era pois um motivo de festejo e todos se uniam para realizarem as tarefas necessárias. Comiam, bebiam e trabalhavam em conjunto. Era uma família pobre com poucos recursos mas que deu ao Vasco os bons costumes da boa educação, uma família religiosa, mas nem isso tornou o Vaco um homem de fé. Pelo menos até à reviravolta.
Vasco foi crescendo e se apaixonou por uma mulher da aldeia acabando por casar com ela. Vasco teve de ir cumprir o seu dever patriótico lutando pelas colónias de seu País. Assistiu à morte dos companheiros e viveu terrores que o atormentaram pela vida fora em sonhos agoniantes. Mas esta parte da história eu não vou entrar em muitos detalhes porque eu não assisti, não era nascida, vou resumir portanto, até onde começa a história. O Vasco casou com a Júlia, que são os meus avós maternos e tiveram uma filha muito amada e única, aqui daremos-lhe o nome de A Grande, a minha mãe, vieram tentar a sua sorte na cidade capital, Lisboa. Vasco estava agora a trabalhar diretamente com a Defesa do País e seria uma ótima oportunidade de tentar subir na vida, como eles diriam, e a Júlia arranjou emprego também. Viveram num andar junto ao centro da cidade, até que a oferta que veio mudar todas as suas e a minha vida aconteceu.
Um Homem “amigo” fez-lhes uma proposta tentadora. Uma casa maior por um valor melhor. Uma única senhora ainda vivia nessa casa, a mãe do homem, e estava de cama e não se esperava que aguentasse mais tempo. O que eles teriam de fazer, era somente viver com essa senhora nessa casa como se fossem familiares, para que pudessem ter a prevalência sobre o aluguer da habitação. E assim aconteceu.
Cuidaram de seus pais nessa casa, lembro-me vagamente de ele ser resmungão até diria mau, se não fosse ser demasiado cruel. Ela lembro-me somente do dia da sua morte.
Tinha por volta de seis anos, a família encontrava-se reunida, tios, filhos, netos, a hora havia chegado, estávamos na casa da minha tia-avó, uma casa solitária num monte ribatejano. Era de noite estava na rua a ver as estrelas com o meu avô Vasco, sentia-me serena apesar de ser um momento triste, senti que havia paz. Até que um grito de dor interrompe o silêncio daquela noite, ela tinha partido. Eu entrei, vi o corpo dela e um vazio e muita dor naquele quarto. Mas esta parte também não é o que eu quero contar. A história que mudou a minha vida começou no dia em que nasci, porque eu assisti, não como está a imaginar em sua mente, mas porque fui eu que escolhi esta família para nascer.
Eu sou a Clara, a menina agora adulta que conta a historia
Capítulo II
Quando a grande casou.
A Grande, era a típica menina, com peso a mais, de caracóis em cabelos negros e os olhos grandes castanhos esverdeados. O que eu sei do começo desta história foi que a Grande saiu um dia sozinha com 15 anos, ela não podia sair porque a família tradicional vinda de uma aldeia no interior de Portugal, não achava por bem uma moça andar sozinha na rua e muito menos sair à noite. Mas depois de tanto pedir, bater o pé e falar com o seu pai Vasco, foi-lhe permitido sair, e eu, a Clara fui concebida nessa noite. Coisa que A Grande me culpabilizou a vida toda.
A gravidez ocorreu, isso é um facto, nem que seja pela minha presença aqui a contar a história. Esse rapaz com quem ela estava nessa noite, veio a tornar-se marido logo a seguir. Tudo à pressa para esconder a gravidez. O homem com quem A Grande casou é o Augusto, que não era propriamente de famílias abastadas mas teria melhores condições económicas.
Augusto não está muito feliz nas fotos do casamento. O acto foi consumido agora terá de arcar com as consequências, premeditas talvez, A Grande é inteligente, gananciosa e muito ambiciosa não se admire que tudo não tivesse sido calculado.
Se leu até aqui, saiba que A Grande, nunca foi uma mãe normal, nunca amou as filhas, mais como um empecilho. Outra criança nasceu mais tarde, outra menina. Mas dela pouco irei falar.
As crianças foram criadas por duas pessoas, Vasco e Júlia.
A Grande sempre viveu na casa dos pais, durante todo o casamento, ela não sabia tomar conta de um bebé, ela tinha 16 anos. Eles eram adultos irresponsáveis.
A vida começa a tornar-se complicada. Discussões por causa de falta de dinheiro começam a ocorrer entre A Grande e o Augusto que não queria trabalhar, refugiando-se cada vez mais em bebida.
Seria do álcool imenso que teria no seu corpo, tantas vezes que foi internado no Júlio de Matos, eu visitava o Augusto. O Júlio de matos é um hospital onde muitos doentes mentais ficam internados. Mas a família podia visitar.
Os altos e baixos do Augusto levaram a tremendas discussões, apertava o pescoço Á Grande, ou noutra discussão partiu a cana do nariz à Júlia, a Clara e a irmã, já sabíam quando ele vinha lúcido ou embriagado somente pela maneira como ele colocava a chave na fechadura. E quando ele vinha alterado, tremiam de medo, tanto que se escondíam debaixo da cama.
O lado paternal da família não há nada que possa falar. Não os conheceram profundamente. O Augusto é aquele homem bêbado que se torna agressivo contrariado.
A Grande, queria uma vida em festa, e para isso convenceu o Augusto a roubar todo o ouro à Júlia, à sua mãe. E ele o fez. Claro que ela descobriu e foi mais uma discussão tremenda.
Nisto tudo o Vasco e a Julia sentiam que não era nada disto que eles queriam quando vieram para Lisboa, quando foram para aquela casa, e nunca entenderam o porque de lhes estar acontecer aquilo. Não eram más pessoas, honestas, educadas.
Havia imensas bíblias pela casa quando eu era criança mas elas foram desaparecendo mais tarde. A Julia sentiu que devia se voltar para Deus e o Augusto andava com uma bíblia na rua debaixo do braço.
Eram pedidos de Socorro mas eles nem sabiam a quem se dirigir.
Historia que a Grande contou sobre a Julia, que ela um dia veio desesperada com a vontade de comprar um livro, alguém tinha-lhe falado desse livro: O livro de São Cipriano. A Julia tinha na altura por volta de 40 anos, procurou e conseguiu encontrar o livro, leu-o numa só noite, e dizem que ela o leu também de trás para a frente, coisa que reza a lenda não se deve fazer. Bem, o livro de São Cipriano é um livro de feitiços digamos, com rezas e poções mágicas considerada magia negra. Toda a gente sabia que algo se passava sem explicação possível. Coisas estranhas aconteciam parecia que o mal invadia aquela casa, e não é que era isso mesmo! Mas a essa parte já lá chegaremos.
A Grande sempre foi uma mulher de esquemas, de estratagemas, de tamanha falta de amor por suas filhas e era deveras notório. Mas a Júlia não queria admitir que sua filha pudesse ser assim, a vergonha era tanta que deixou de querer passear, e sair e visitar amigos e familiares, refugiando-se em casa quando não ia trabalhar. A dor era imensa, mas o desgosto era muito maior. Depois do roubo de suas jóias, depois de violentas discussões em casa, depois de ser agredida fisicamente, Júlia, não sabia a quem mais recorrer.
A Grande e o Augusto tiveram uma oportunidade em Espanha e foram trabalhar para lá, levaram a irmã que era mais nova, a clara já andava na escola primária. A Grande ia trabalhar numa casa, fazendo limpezas e o Augusto ajudando em outros serviços. Mas essa oportunidade Espanhola, era tudo menos pacífica.
Essas pessoas com quem eles foram trabalhar, tinham uma casa de prostituição. Viviam todos numa só casa, a irmã passava mais tempo com a outra família do que com a Grande. E a Grande até insistia para que isso acontecesse. Em Portugal comecou a sentir-se doente, a Clara e a irmã no outro lado também, ao mesmo tempo. Mas isso não fazia com que a Grande voltasse para Portugal.
Até que o bisavó o resmungão acaba por falecer, e teve de vir ao funeral. A Grande veio contrariada, mas tinha interesse em regressar visto não ter trazido nada. As crianças como por milagre ficam logo boas.
Mas há aqui uma questão que vai mudar tudo, antes do falecimento o Augusto vem primeiro para Portugal e entrega à avó uma carta, que ela nunca mostrou a ninguém. Talvez dai a vergonha a tenha arrasto de vez para as profundezas da dor.
Nessa carta está explicito o interesse da Grande em Espanha. O Augusto inicialmente apoiava mas depois tomou consciência e voltou, e escreveu:
“ A Grande tem intenções de vender a filha por uma quantia muito elevada e depois com esse valor desaparecer”.
O choque daavó foi imenso, mas ela não queria que A Grande soubesse que tinha sido o Augusto a denunciar para não ter mais discussões. A Júlia somente não permitiu que ela levasse a filha.
A Grande odiou a mãe por ela ter agido contra a vontade dela, mas nunca sabendo que ela saberia do seu plano horrível de vender sangue do seu sangue em troco de dinheiro.
Como posso eu chamar de A Grande a alguém que comete actos tão baixos? Por isso mesmo coisa que ela sempre quis foi ser grande mas só em tamanho o foi. Mas não bastando estes actos pecaminosos todas as pessoas sofriam naquela casa, a Clara virou sonâmbula. Saia da cama e andava pela casa, sentava e falava. Quando o transtorno era tanto batia violentamente em cima da cama com o maior sentimento de raiva que alguém podia sentir, dificilmente a conseguiam acalmar. Tentaram medicação. Mas não surtia efeito. Muitas dores de cabeça, muitas mudanças repentinas de humor. A vida não era fácil e nem viria a ser, só ia se tornar pior.
O divórcio acabou por acontecer quando a Clara tinha 10 anos.
Mas isto é só o inicio da história.














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